Solo fértil para as finanças verdes.

*Lucas Tuffi

Em julho, o movimento norte americano Stop Hate For Profit (algo como pare de dar lucro ao ódio), liderado por empresas como Coca-Cola, Honda, Unilever, Verizon, The North Face, entre outras, promete incentivar o boicote aos anúncios no Facebook durante um mês. A represália seria uma reação da sociedade civil contra a tolerância da companhia com mensagens de ódio veiculadas nas redes sociais da marca. O objetivo da campanha deixa um recado claro: as empresas irão pensar duas vezes antes de se “vincularem” a quem não demonstra preocupação ou respeito com questões de cunho social, econômico ou ambiental.

No agronegócio não é diferente. As companhias querem saber de quem estão comprando, quem financiam ou asseguram. Nada mais será aleatório e isso é muito bom: a nova maneira de ver o mundo eleva o nível dos negócios no segmento. Produzir no campo, respeitando a sustentabilidade, não é só uma questão de consciência, mas, algumas vezes, exigência legal e de aumento de percepção de valor. Portanto, quem não trabalha em conformidade por princípios ESG (Environmental, Social and Governance) terá que se adequar por conta da vontade da sociedade, das leis e do bolso, uma vez que a fonte de recursos para quem negligência o território tende a secar.

A adoção de medidas como a MP do Agro, transformada na Lei 13.986, contribui para que os produtores busquem financiamentos com menos custos e mais facilidades, mas trata-se de uma rua de mão dupla: as leis serão cada vez mais pragmáticas e as operações do “dar o crédito sem olhar a quem” já beiram à extinção.

Outra iniciativa recente foi o lançamento do Plano de Investimento para a Agricultura Sustentável, desenvolvido pelo governo brasileiro em parceria com a Climate Bonds Initiative (CBI), principal certificadora da área no mundo. A ideia é incentivar a emissão de títulos verdes (green bonds e transition bonds), certificando quem for capaz de reduzir o consumo de água, energia e matérias-primas, além de estimular a adoção de tecnologias que preservem o meio ambiente.

É como se o cerco das finanças sustentáveis – ou finanças verdes – estivesse se fechando, direcionando recursos para atividades econômicas que atendem às boas práticas ambientais, sociais e de governança, estimulando o cumprimento das determinações e critérios dos programas regulatórios, sob pena de restrições mercadológicas ou de valor de mercado.

Bancos, seguradoras e mercado de capitais

As finanças verdes são formadas por três grandes elos: bancos; seguradoras e resseguradoras e empresas do mercado de capitais e securitização. Mas cada um destes elos terá um aproach diferente e formas particulares de atuação.

No caso dos bancos, a concessão de crédito irá se ater ao fomento de produções que resguardem o social, o ambiental e o econômico, além de buscar entender qual o projeto do produtor: para qual finalidade a verba será utilizada? O próprio Banco Central tem se empenhado na construção de resoluções que obriguem as instituições a terem critério ao financiar. Um exemplo é a Resolução 4327, que estabelece princípios e diretrizes na análise socioambiental, sendo que qualquer comprometimento pode inviabilizar o fechamento da parceria.

Para as seguradoras e resseguradoras há, por exemplo, o respaldo dos Princípios para Sustentabilidade em Seguros (PSI, em inglês), estabelecidos pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente  em parceria com a indústria global de seguros para o desenvolvimento. A iniciativa data de 2014 e objetiva criar relações mais sólidas entre a indústria de seguros e a sociedade, respeitando as dimensões socioambientais. Da mesma forma, quando falamos em mercado de capitais, os investimentos deverão ter o lastro verde, sem nenhum comprometimento com atividades não conformes.

Para cumprir as premissas das finanças verdes, as instituições têm o apoio de empresas de tecnologia, como a Agrotools, que há 13 anos desenvolve soluções para o segmento cumprir sua parte na construção de financiamentos verdes, seguros verdes e títulos verdes. A eficácia das ferramentas Agrotools é comprovada pelos nomes que compõem sua carteira – que inclui marcas como Rabobank, Banco ABC, Itaú BBA, Fairfax e Banco Mundial, entre outras – que a consolidam como principal player de monitoramento e fomento às boas práticas do setor financeiro. 

A preocupação crescente com a gestão de riscos e não apenas dos riscos operacionais, que compreendem perdas financeiras, mas principalmente com os reputacionais esbanja coerência. Isso porque perdas financeiras podem ser revertidas quando a imagem da companhia é preservada. Mas a recíproca não é verdadeira.

Por isso a mobilização em prol de ações sustentáveis, começando pelos parâmetros financeiros, anuncia uma boa safra para o futuro, com todos os elos do agronegócio trabalhando para produzir sustentabilidade e valor em larga escala.

*Lucas Tuffi é diretor da Agrotools.

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