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Inadimplência no crédito rural: por que a carteira piorou

Inadimplência no crédito rural: por que a carteira piorou

10 de setembro de 2026

Tempo de Leitura: 11 minutos

A inadimplência do crédito rural subiu de forma consistente nos últimos doze meses e já aparece no resultado dos bancos. Para instituições financeiras, cooperativas de crédito e fintechs que operam carteira agro, o tema envolve hoje decisões concretas sobre provisão, renegociação e critério de concessão.

Os números abaixo vêm das estatísticas do Banco Central e do balanço do maior credor do setor. Eles ajudam a dimensionar o problema e a localizar, dentro da carteira, onde a perda se concentra.

Quanto a inadimplência do crédito rural subiu

A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas com recursos direcionados chegou a 8,8% da carteira em julho de 2026, contra 7,5% em junho. É o maior valor da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011. O recorte importa: trata-se de pessoa física com recursos direcionados, que é onde mora a maior parte da carteira rural. Na pessoa jurídica, o índice do mesmo mês ficou em 0,9%. 

A subida vem de longe. Pela série 21148 do Banco Central, o índice era de 4,47% em julho de 2025, passou por 5,23% em agosto, 6,58% em dezembro e 7,42% em janeiro de 2026, até chegar a 8,79% em julho. O indicador praticamente dobrou em doze meses, com altas mês a mês e poucas interrupções. 

O risco não se distribui igual entre os dois tipos de operação. Nas operações a taxas reguladas, com juros equalizados, o Banco Central registrou 3,7% em julho. Nas operações contratadas a taxas de mercado, em que a instituição financeira assume o risco sem equalização, o índice foi de 13,1% em junho para 15,5% em julho. A diferença entre os dois recortes indica onde a perda recai sobre o balanço do credor.

No mesmo mês, o saldo dessa carteira ficou em R$ 557,282 bilhões, com queda de 1,0% sobre junho. A combinação de carteira menor com inadimplência maior indica que a composição da carteira piorou, além da retração de volume.

O que o balanço do maior credor do setor mostra 

O Banco do Brasil publica a abertura mais detalhada do setor, e a leitura dele ajuda a dimensionar o problema. Conforme dados do Banco Central citados no relatório de resultados do segundo trimestre de 2026, o banco detinha em junho 49,1% de participação nos financiamentos ao setor e 56,0% do crédito direto ao produtor rural pessoa física. 

A carteira agro do banco encerrou junho em R$ 421,6 bilhões, com crescimento de 4,1% em doze meses. No mesmo período, a inadimplência acima de 90 dias saiu de 3,16% para 6,27%. Em valor, o estoque vencido dobrou, de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,4 bilhões. O índice de cobertura recuou de 210,3% para 165,2% no intervalo de um ano, com o menor patamar em março e alguma recuperação no segundo trimestre.

A perda esperada da carteira agro merece atenção de quem define política de provisão. Ela subiu de R$ 26,9 bilhões para R$ 43,7 bilhões e equivale a 10,4% do saldo em junho, contra 9,7% em março. A migração entre estágios acompanha: o Estágio 3, que reúne as operações classificadas como crédito problemático, passou de 6,3% para 8,1% da carteira agro, enquanto o Estágio 2 encolheu de 4,5% para 2,3%.

O efeito chega ao resultado do banco. O custo do crédito somou R$ 18,5 bilhões no segundo trimestre, com alta de 16,1% sobre o mesmo período de 2025, e R$ 37,3 bilhões no semestre, alta de 43,3%. O número cobre a carteira inteira da instituição, e o relatório atribui o patamar à “continuidade da dinâmica mais agravada em parte das carteiras de Agronegócios e Pessoas Físicas”. No acumulado do ano, o lucro ajustado recuou de R$ 11,2 bilhões para R$ 7,3 bilhões.

Onde a deterioração se concentra dentro da carteira

A abertura por linha de crédito mostra que o problema tem um foco. A inadimplência acima de 90 dias do custeio agropecuário chegou a 10,18% em junho de 2026, contra 3,78% um ano antes, com o pico da série em março, a 10,56%. No Pronaf o índice saiu de 1,58% para 5,99% e no Pronamp de 1,38% para 3,99%. O custeio financia a safra corrente, e foi a primeira linha a sentir.

A distribuição geográfica também não é uniforme. Na carteira agro do Banco do Brasil elegível à renegociação, conforme abertura publicada pela CNN Brasil, são 40,2 mil clientes no Sul com R$ 22,9 bilhões, 18,4 mil no Centro-Oeste com R$ 33,9 bilhões, 25,9 mil no Sudeste com R$ 23,6 bilhões, 17,5 mil no Nordeste com R$ 10,4 bilhões e 11,3 mil no Norte com R$ 9,3 bilhões.

A assimetria entre contratos e dinheiro chama atenção. O Centro-Oeste tem menos da metade dos clientes do Sul e concentra o maior volume. Dividindo volume por cliente, cálculo que fizemos a partir dos números publicados, a exposição média fica em torno de R$ 1,8 milhão no Centro-Oeste e de R$ 570 mil no Sul. Se a sua instituição prioriza revisão de carteira por quantidade de operações, o resultado tende a apontar para a região errada.

O perfil dessa carteira reforça o ponto. Nela, 65,2% do volume é de agricultura empresarial e 30,5% de médios produtores, com o restante em agricultores menores e familiares. Por cultura, 38,8% referem-se a soja, 35,6% a pecuária e 8,6% a milho. E 36% correspondem a operações inadimplentes, enquanto o restante são operações adimplentes que já passaram por prorrogação ou renegociação. Quase dois terços do que já está estressado continua aparecendo em dia no cadastro.

O que explica a piora

O setor tem apontado quatro origens para a deterioração. A evidência disponível para cada uma tem qualidade diferente.

  • A queda de preço na comercialização

A receita da safra 2025/26 se formou em patamar baixo. No encerramento de janeiro de 2026, o indicador do milho ESALQ/BM&FBovespa, calculado pelo Cepea, voltou a operar na casa dos R$ 65 por saca de 60 quilos, patamar que não era verificado desde o final de outubro de 2025.

Na soja, o calendário de venda pesa tanto quanto a cotação. Segundo o boletim do Imea, a comercialização da safra 2025/26 em Mato Grosso alcançou 81,04% da produção em maio de 2026, com preço médio mensal de R$ 106,58 por saca, movimento puxado pela necessidade de abrir espaço nos armazéns para a entrada do milho. Quando quatro quintos da safra já foram vendidos, a receita do ano está definida e não se recompõe com alta posterior.

  • As perdas por evento climático

Aqui a evidência é de atribuição, e não de medida. As normas que criaram as rodadas recentes de renegociação descrevem os beneficiários como produtores e cooperativas impossibilitados de quitar operações de crédito rural e de CPR devido a perdas acumuladas por eventos climáticos adversos, e listam secas, geadas, granizo e inundações entre as causas admitidas.

O regulador nomeia o clima como origem do problema. Nas fontes públicas consultadas, porém, não localizamos uma cifra consolidada de quebra por região e por cultura que permita dimensionar o efeito com precisão.

  • A fragilidade da garantia fundiária

O imóvel dado em garantia é examinado por três critérios: segurança jurídica da titularidade, compatibilidade entre a área real, a área registrada e as certificações técnicas, e liquidez em caso de execução. Quando a matrícula descreve menos do que a propriedade explora, o crédito é dimensionado pela área que o registro sustenta, e não pela lavoura que existe no campo.

O lado ambiental do mesmo problema já aparece em volume. Com a checagem por sensoriamento remoto obrigatória desde março de 2026, dados do Banco Central registram o bloqueio de milhares de operações, somando mais de R$ 6 bilhões.

  • A dependência de documento declarado

A quarta origem aparece no que o legislador achou necessário punir. A medida provisória da renegociação prevê que quem usar o benefício indevidamente perde o direito ao crédito e devolve os valores corrigidos. Profissionais que emitirem, assinarem ou validarem documentos fraudulentos respondem por danos ao Erário e ficam impedidos de contratar crédito rural subvencionado por até cinco anos.

Um programa que precisa criar esse regime de punição indica que a comprovação de perda depende de documento apresentado pelo tomador.

O que sua instituição consegue verificar na área financiada

As quatro origens têm um ponto comum: todas acontecem na área financiada, e nenhuma delas aparece no extrato do cliente. Preço e clima determinam a receita da safra. A situação fundiária determina quanto a garantia realmente vale. E a diferença entre o que o documento declara e o que o campo mostra é onde a fraude se instala.

O regulador já caminhou nessa direção. A Resolução CMN 5.267, de 2025, tornou o sensoriamento remoto obrigatório no monitoramento das operações, com acompanhamento contínuo das áreas financiadas em empreendimentos acima de 300 hectares. A verificação passou a durar toda a vigência do contrato.

O desenho das renegociações recentes mostra o que os credores concluíram sobre garantia. Na rodada estruturada pelo Banco do Brasil, 73,3% do volume saiu com alienação fiduciária, com preferência por imóveis, e ficaram vedados o penhor de safra futura e o penhor de produto colhido. O banco parou de aceitar direito sobre uma safra que pode não se realizar.

Há ainda um indicador do próprio balanço que ajuda a antecipar. A inadimplência de 30 dias da carteira agro está em 8,97%, quase três pontos acima do índice de 90 dias. O relatório não comenta essa diferença, e a leitura é nossa: o intervalo entre os dois indicadores corresponde a operações que já começaram a atrasar e ainda não completaram o ciclo de vencimento.

Na rotina de acompanhamento, o registro por área responde a perguntas que o cadastro do cliente não responde. Quais operações estão em propriedades com quebra recorrente, e não apenas em um ano ruim. Se a perda veio de queda de produtividade ou de área que deixou de ser plantada, situações que se parecem no resultado financeiro e pedem tratamento diferente. E quanto da carteira caminha para o estágio de crédito problemático antes de o atraso ser registrado.

O contexto de endividamento reforça a urgência dessa leitura. Segundo levantamento da Frente Parlamentar da Agropecuária, a dívida estressada do setor alcança R$ 197,2 bilhões até junho de 2026. Antes de chegar ao banco, o problema aparece no produtor: levantamento da RGF com dados do BizDoc publicado pela CNN Brasil apontou 886 CNPJs de empreendedores rurais em recuperação judicial, o equivalente a 74% dos 1.193 CNPJs do agronegócio com processo ativo, em alta de 86% em doze meses.

Some-se a isso a proteção contratual, que diminuiu. Pelos números do próprio Banco do Brasil, o custeio agrícola contratado sem nenhum mitigador saiu de 45,9% do volume na safra 2023/24 para 64,4% na safra 2025/26, com o seguro agrícola caindo de 43,2% para 26,7% do volume contratado. Com menos seguro na assinatura, a quebra da lavoura chega com mais força ao contrato de crédito.

Como a Agrotools apoia o monitoramento da carteira

A Agrotools acompanha a lavoura financiada ao longo do ciclo, estima a produtividade da área e mantém o histórico das safras anteriores. Com isso, sua instituição consegue distinguir queda de produtividade de redução de área plantada e identificar quais operações da carteira acumulam perdas em safras seguidas.

O mesmo acervo atende às verificações fundiária e documental. A checagem territorial cruza a propriedade com o CAR e seu estágio de análise, com áreas embargadas e com sobreposições de unidades de conservação e terras indígenas, e compara a área declarada com a área que a imagem mostra em produção. Para carteiras com dezenas de milhares de contratos, isso muda o esforço de revisão: com o histórico disponível, a consulta é imediata, sem depender de coleta de documento cliente a cliente.

São mais de 200 milhões de hectares monitorados, com duas décadas de histórico territorial, entregues por integração em sistema. É a mesma base que sustenta a solução digital de crédito rural, aplicada tanto na concessão quanto no acompanhamento da carteira ao longo do contrato.

Se a sua instituição está revisando política de provisão, critério de concessão ou fila de renegociação para o próximo ciclo, o retrato da área financiada é o insumo que falta na maioria das carteiras. Fale com os especialistas da Agrotools para levantar esse retrato na sua base. 

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