Os resultados da COP26

Frustrante em um contexto geral, mas positiva para alguns setores. Conheça os detalhes do acordo final e de regulamentações e compromissos assinados na conferência. Para o agronegócio brasileiro, consolidou-se um horizonte promissor. Mas há muitos desafios para alcançá-los. 

A Conferência das Partes é realizada desde 1995 pela Organização das Nações Unidas (ONU), em busca de soluções para as mudanças climáticas. A 26ª COP aconteceu em Glasgow, na Escócia, entre 31 de outubro de 12 de novembro. Isso oficialmente, porque, como já ocorreu em outras edições da conferência, as negociações se estenderam no dia seguinte ao encerramento. Estava difícil de ratificar o comprometimento com medidas fundamentais. E algumas terão que viajar para o Egito, na COP27, para serem efetivadas.

O “Pacto de Glasgow para o clima”, como foi chamado o texto final da COP26, recebeu a assinatura de 200 países. Ele arremata as duas semanas de anúncios e negociações, que se referem a ações em âmbito nacional e também conjuntas entre governos, empresas e organizações do terceiro setor.

Foi a COP da ação?

De uma forma geral, especialistas avaliam que a conferência não atingiu os objetivos.

A expectativa era fazer dessa a “COP da ação”, no sentido de consolidar iniciativas consistentes para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C. Mas alguns pontos cruciais foram frustrados:

– A viabilização do fundo de US$ 100 bilhões prometido pelos países ricos no Acordo de Paris, em 2015, para começar a operar ainda em 2020, era esperada para finalmente acontecer na conferência desse ano. Mas não se concretizou. Com isso, os países vulneráveis às mudanças climáticas, que cobram esse financiamento há muito tempo, continuam sem respostas. No acordo final, as nações ricas se comprometeram apenas a “analisar”, no médio prazo, os pedidos de indenização por desastres naturais e intempéries, como secas e inundações. A expectativa é de que o dinheiro seja mais facilmente liberado para ações de mitigação, que dão retorno financeiro, já que se tratam de iniciativas e negócios da economia verde, como plantações sustentáveis e geração de energia limpa.

– A eliminação do uso do carvão e dos subsídios a combustíveis fósseis também estavam no topo das promessas. Mas as medidas contratadas ao final da COP26 são consideradas tímidas. Índia e China, dois dos principais poluentes, conseguiram alterar o trecho do acordo final que previa “eliminar gradativamente”. No texto, o compromisso ficou em “reduzir gradativamente”. Apenas um verbo, mas que altera de forma significativa o futuro do planeta.

O que saiu de positivo da COP26

Ao lado das frustrações, houve avanços importante, como o comprometimento de dezenas de países com a redução das emissões de carbono e metano. E mesmo que a redução do uso de carvão e subsídios às indústrias de petróleo e gás não tenha sido satisfatória, foi a primeira vez que o tema apareceu em um texto final de COP.

Outro ponto positivo da COP26 foi a grande presença de diretores de empresas, pesquisadores, cientistas, movimentos sociais, governos subnacionais e cidadãos. Com isso, as discussões atingem contornos mais amplos. E a pressão sobre os “devedores” na conta climática também aumenta.

“Para mim, a grande novidade é uma presença ativa, maciça de players privado do mundo financeiro, da sociedade civil, das grandes empresas internacionais. São esses agentes que vão implementar as ações”, destaca Marcos Jank. Aos governos, aponta Jank, cabe construir consensos entre países que sejam mais efetivos.

Marcos Jank, membro do board da Agrotools, professor sênior de Agronegócio Global no INSPER
Entrevista exclusiva com Marcos Jank, membro do board da Agrotools, professor sênior de Agronegócio Global no INSPER e coordenador do centro Insper Agro Global.

Para o agronegócio, foi uma COP de boas notícias, já que, pela primeira vez, o uso da terra esteve em pauta. Mas nesse contexto, é preciso responder às exigências estabelecidas contra o desmatamento para que o agronegócio se consolide como protagonista no combate às mudanças climáticas, usufruindo de mercados e valor agregado às commodities que se abrem a partir disso. 

Veja os principais acordos e regulamentações assinadas na COP26:

Mercado global de carbono

Após seis anos de elaboração, partindo do Acordo de Paris de 2015, as regras para um novo mercado global de carbono foram postas em prática pela Cúpula do Clima da ONU.

Com a conclusão do chamado “livro de regras de Paris”, serão potencialmente desbloqueados enormes recursos para proteger florestas e financiar outros projetos para combater as mudanças climáticas através do sequestro de carbono da atmosfera

Em entrevista à Reuters, o negociador-chefe do Brasil, Leonardo Cleaver de Athayde, afirmou que “isso deve estimular o investimento e o desenvolvimento de projetos que possam gerar reduções significativas de emissões”.

Com a operacionalização do Acordo de Paris, a nova estrutura será composta de duas partes. Primeiro, será criado um sistema centralizado, aberto aos setores público e privado. Em paralelo, será operado também um sistema bilateral, em separado, que permitirá aos países comercializar créditos para ajudar a cumprir as metas de descarbonização.

Se o crédito de carbono é considerado o ouro do futuro, o Brasil tem a mina que interessa ao mundo todo. O potencial florestal do país é tal qual o tamanho do nosso território, imenso. Além disso, a agricultura também é vista como uma das principais fontes de créditos de carbono, através, por exemplo, da rotação de cultura soja-milho. Por ser uma gramínea, o milho aumenta a captura de carbono da atmosfera na plantação.

Com práticas e projetos bem estruturados, a receita líquida que o país pode gerar até 2030 com a venda de créditos de carbono chega a US$ 72 bilhões, de acordo com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds).

Hoje, o Brasil opera em mercados voluntários de carbono, formados por empresas de diversas partes do mundo que voluntariamente decidem neutralizar as suas emissões de gases de efeito estufa. “Temos enxergado um aumento na demanda desse mercado, o volume dos créditos transacionados já cresceu cerca de 30% comparado a agosto do ano passado. Então, tem sido um desenvolvimento muito importante que traz credibilidade para esse tipo de projeto no Brasil”, avaliou Annie Groth, advogada da Biofílica Ambipar Environment em painel realizado na COP26.

Um dos maiores projetos globais, já em estágio avançado, que está desenvolvendo práticas, padrões e tecnologias para o mercado de carbono, é o Carbono Bayer. E o Brasil, junto aos Estados Unidos, foi escolhido para pilotar a inovação.

Mais de 400 produtores brasileiros participam da iniciativa. Nos EUA, são cerca de 800. O programa entrou na segunda etapa, denominada PRO Carbono, em maio de 2021, que começou a fazer a medição do carbono capturado da atmosfera através das práticas sustentáveis nas propriedades rurais.

banner ESG

Acordo de Florestas (Forest Deal)

Exige que os países zerem e revertam o desmatamento até 2030. Nesse sentido, estabeleceu compromissos sobre mecanismos regulatórios para limitar o comércio internacional de produtos responsáveis pelo desmatamento. Também considera a proteção aos povos indígenas e os reconhece como essenciais na preservação do meio ambiente. Promove uma cadeia sustentável de oferta e demanda de commodities, e prevê financiamento para iniciativas da economia verde.

O Brasil assinou o acordo, o que sinaliza uma nova postura do país em relação ao tema. E, com isso, posiciona o agronegócio de forma proativa aos olhos do mundo contra o desmatamento. Recuperar a credibilidade era uma das prioridades do Brasil na COP26. Nossos números não são bem-vindos em uma economia de baixo carbono: somos o quarto maior emissor do mundo, e desmatamento e o manejo inadequado do solo na pecuária correspondem a cerca de 80% das emissões do pais, segundo o Observatório do Clima.

Horacio Lafer Piva, conselheiro da Klabin e ex-presidente da FIESP em entrevista com Sergio Rocha, CEO da Agrotools, divide conosco sua visão sobre oportunidades e o potencial brasileiro diante do cenário COP26.

Compromisso Global de Metano

Estabelece a redução das emissões de metano em 30% até 2030, em nível global, em relação aos níveis de 2020. Também foi assinado pelo Brasil, que agora precisa de forma urgente rever a cadeia produtiva da pecuária, responsável por ⅔ das emissões de CH4 no país.

Marcos Jank, professor e coordenador do centro Insper Agro Global, e membro do advisory board da Agrotools, avalia que, apesar do avanço, faltou estabelecer critérios. “O acordo sobre o metano é muito vago, porque ele fala em 30% de redução do metano do mundo, não é um compromisso por país. E ainda vai ser definido com quanto cada país vai contribuir para isso.”

Acordo do Carvão

Apesar do enfraquecimento que teve no acordo final, o acordo pela redução do uso do carvão recebeu a assinatura de mais de 40 países, incluindo os principais emissores. 40% das emissões de CO2 no mundo saem da queima do carvão, especialmente para geração de energia.

Energia limpa

Cerca de 450 organizações financeiras concordaram em apoiar o desenvolvimento de tecnologias para energia renovável. A transição energética é tida como uma das maiores oportunidades de negócio para os próximos anos. EUA e China prometeram energia elétrica zero carbono até 2035.

Manifesto da Soja do Reino Unido

27 empresas se comprometeram em barrar o embarque, para o Reino Unido, de cargas de soja cultivada em áreas desmatadas após janeiro de 2020.

O impacto dos acordos no agronegócio brasileiro

Além da medida do Reino Unido, Estados Unidos e China assinaram o compromisso de não importar produtos que provoquem desmatamento.

O Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo. Atende mais de 60% da demanda chinesa e é o maior fornecedor de carne bovina para a China.

Quando certificações ambientais passarem a ser exigidas para as exportações agrícolas, o agronegócio brasileiro precisa estar pronto. E tem todas as ferramentas para isso. Há iniciativas e tecnologias já disponíveis que garantem o rastreamento da cadeia produtiva, e o compliance com regulamentações internacionais.

Nesse sentido, as empresas que atuam direta ou indiretamente com o setor agropecuário têm grandes oportunidades econômicas. Mas ganhar com elas depende da adoção de soluções inovadoras ligadas à sustentabilidade.

Como avalia Grazielle Parenti, VP Global de Relações Institucionais e Sustentabilidade da BRF, que participou da COP26: “eu vi um grande interesse em relação ao Brasil. Falou-se muito em tecnologia, desmatamento, metano e energia renovável. Fiquei bastante confiante. Há 40 anos, o Brasil era um país importador de alimentos. Hoje, o Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos. Qual é o Brasil dos próximos 40 anos? E no nosso ponto de vista na BRF, não é ‘ou’. É ‘e’. Vai ser o Brasil produtor de alimentos para o mercado interno e externo, e a potência da sustentabilidade. Os negócios que entenderem isso, vão estar aqui para contar a história”.

Grazielle Parenti, VP Global de Relações Institucionais e Sustentabilidade da BRF, numa entrevista com Sergio Rocha, CEO da Agrotools fala sobre Sustentabilidade como estratégia de negócio na BRF & COP26

O agronegócio brasileiro é um protagonista mundial na produção sustentável de alimentos. Integração lavoura-pecuária-floresta, a Moratória da Soja e do Boi, e o Plano de Agricultura de Baixo Carbono (ABC+) são algumas das ações que impulsionam o agro brasileiro no cenário mundial de transição para a economia verde.

“O Brasil tem floresta e agroindústria notáveis, tanto para uma exploração que alimenta o mundo, quanto para gerar energia limpa e fazer dinheiro monetizando seus créditos de carbono. A Amazônia é um tesouro de oportunidades para esse novo mundo do consumo consciente. Nosso índios têm a ensinar, os nossos agricultores sabem plantar”

Horácio Lafer Piva, board da Klabin

No âmbito dos créditos de carbono, as regras estruturadas na COP26 para o mercado global “abrem caminho para um boom”, de acordo com o Financial Times.

Para alcançar os melhores resultados nesse contexto, se faz necessário escalar a sustentabilidade das atividades agropecuárias, e os serviços e produtos que as atendem. Isso só é possível através de tecnologias que ampliam os territórios mapeados, e garantam agilidade e precisão às análises.

Tecnologia brasileira para o agro sustentável

“O comprador tem todo o direito de falar ‘não quero comprar soja que tenha qualquer traço de desmatamento’. E aí ele vai encontrar essa soja, essa carne, facilmente, inclusive, contratando empresas como a Agrotools, que são capazes de fazer esse monitoramento, essa rastreabilidade do produto”, destaca Marcos Jank, professor e coordenador do centro Insper Agro Global, e membro do advisory board da Agrotools.

As APIs e ferramentas tecnológicas da Agrotools já contribuem, há mais de uma década, com os caminhos para um agronegócio sustentável. Compliance socioambiental das propriedades rurais, análises de desmatamento em áreas produtivas criando estratégias de originação para focar em produtores que não desmatam, checagem e acompanhamento da recuperação de pastagens degradadas, checagem de plantio direto para produção agrícola, monitoramento de sistemas lavoura-pecuária, lavoura-floresta, pecuária-floresta ou lavoura-pecuária-floresta, análise de Áreas de Preservação Permanente (APP), Reserva Legal (RL) e adequação à legislação ambiental brasileira (Código Florestal), coleta de evidências em campo e complementação das análises remotas, através do aplicativo mobile GIX, são algumas das soluções oferecidas pela Agrotools, adotadas por empresas de diversos setores, como grandes instituições financeiras do país e multinacionais da indústria de alimentos.

“A união do que a Agrotools está fazendo com outras companhias grandes, que conseguem dar a visibilidade, a escala e o suporte, é que vai permitir resultados incríveis. Acredito muito nesse ecossistema de empresas grandes e startups superinovadoras, fazendo a diferença, que é o caso da Agrotools”

destaca Rodrigo Kede, presidente da Microsoft América Latina e membro do advisory board da Agrotools.
Rodrigo Kede, presidente da Microsoft América Latina e membro do board da Agrotools fala com Sergio Rocha sobre Sustentabilidade, Microsoft e Startups brasileiras.

A Agrotools é a plataforma líder de tecnologia avançada para o agronegócio e entrega soluções que complementam e aprimoram os processos já existentes no setor. Entrega tecnologia tanto para as empresas que precisam de escala, quanto para as que demandam customização ou consultoria, permitindo tomadas de decisão mais precisas, mitigação de riscos, garantia de compliance socioambiental, e operações mais assertivas. Tudo isso leva, inclusive, a novas oportunidades de negócios para os clientes, com base nas soluções tecnológicas inovadoras e de fácil integração.

“Empresas como a Agrotools que estão na fronteira da tecnologia, podem e vão nos alavancar muito”, destaca Horácio Lafer Piva, board da Klabin.

No contexto do protagonismo da agenda ESG, a tecnologia avançada no agro eleva o Brasil a comercializar commodities com atributo. E as startups que entregam soluções tecnológicas para o setor são estratégicas nesse processo, como destaca Grazielle Parenti: “em todas as oportunidades que tenho de falar, no Brasil ou fora, eu reforço o ecossistema de inovação do Brasil para o agro, as agtechs. Quem não está conectado com isso, não sabe o que está perdendo. O Brasil, que pulou de um importador de alimentos, há 40 anos, para um exportador, só fez isso com tecnologia. Tenho muito orgulho de ver o que está sendo feito pelas empresas, pelo poder público. A gente tem a Embrapa, que fez uma transformação nesse país. Na BRF, temos trabalhado muito na transformação digital. Fazemos desde entrega de material genético de drones, a um plataforma de commodities 4.0. E a Agrotools é nossa parceria muito relevante, trazendo toda essa expertise que cria, que tem um valor gigantesco para o negócio. Porque na hora que uma empresa como a BRF assume o compromisso de rastreabilidade de 100% dos seus grãos, que tecnologia vai viabilizar isso? E ter transparência?

Vivemos na era da hipertransparência. A agenda ESG nada mais é do que uma gestão de riscos levada para um outro lugar. Já se tinha preocupação com a gestão da água, da energia. Mas como juntar essas agendas e como traduzir isso em reports claros, que os investidores entendam, os stakeholders entendam. O uso da tecnologia é fundamental.”

Grazielle Parenti, VP Global de Relações Institucionais e Sustentabilidade da BRF
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