Mudanças Climáticas: riscos, desafios e oportunidades financeiras para as empresas

O sexto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, o IPCC, foi taxativo: a contribuição humana para a aceleração do aquecimento global precisa ser freada com urgência. O planeta está na iminência de um colapso climático que poderá ser irreversível, caso ações contundentes não sejam adotadas de imediato.

O sinal vermelho aceso com os dados apresentados pelo relatório do órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) não pode ser ignorado pelas empresas, que precisam estar em alerta para lidar com os riscos e desafios impostos pelas questões do aquecimento global. Mas também atentas para aproveitarem todas as oportunidades que podem surgir com as transformações que serão necessárias para conter essa crise e reverter o cenário.

Para tanto, é imprescindível que as organizações estejam prontas para reunir e apresentar ao mercado informações que mostrem como as mudanças climáticas afetam seus negócios. E, mais que isso, mostrar as ações que têm sido colocadas em prática na gestão de riscos e oportunidades relacionados ao tema.

Pensando em contribuir com sua empresa, neste conteúdo, além de elencarmos alguns dos principais pontos do relatório do IPCC, apresentamos a você o TCFD, um documento que entrega às organizações as diretrizes para divulgação dos impactos e das ações ligadas às questões climáticas. Boa leitura!

Os principais pontos do relatório do IPCC

O novo relatório do IPCC adotou um tom bastante assertivo ao falar sobre a contribuição humana para a aceleração do aquecimento global e sobre a urgência da transição para uma economia de baixo carbono na busca por frear o aumento da temperatura do planeta. Abaixo estão alguns dos principais pontos levantados pelo documento. 

A ação humana é a principal responsável pelo colapso do planeta

Segundo o relatório do IPCC, “é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e a terra” causando o cenário atual. O documento aponta o homem como principal responsável pelo aumento de 1,07°C na temperatura da Terra em comparação com o Período Pré-industrial.

Já estamos vivendo mudanças extremas

O relatório da ONU deixa claro que os eventos climáticos extremos que temos presenciado recentemente, como as enchentes na Europa, a onda de calor no Canadá e os incêndios nos Estados Unidos, são resultado da crise vivida pelo planeta. Segundo o documento, os últimos cinco anos foram os mais quentes desde 1850 e os eventos extremos devem seguir se agravando nos próximos anos e décadas.    

Se nada for feito até 2030, as ações de contenção terão de ser mais radicais e caras a partir da segunda metade do século

O relatório é enfático ao afirmar que medidas precisam ser tomadas imediatamente para limitar o aumento da temperatura do planeta. Para cumprir o que foi planejado pelo Acordo de Paris, limitar o aumento da temperatura da Terra a 1,5°C, é preciso adotar urgentemente ações que impeçam que o nível de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera ultrapasse 450 ppm (partículas de CO2 por milhão) antes de 2100.

Segundo o documento, se medidas realmente efetivas não forem colocadas em prática até 2030, ações ainda mais extremas e caras precisarão ser adotadas na segunda metade do século para tentar impedir que o aumento da temperatura do planeta alcance 2°C em 2050 e passe de 4ºC até 2100.

Apesar da gravidade, ainda há esperança de reverter o cenário

As conclusões do relatório são realmente alarmantes e devem ser entendidas como “um código vermelho para a humanidade”, segundo António Guterres, secretário-geral da ONU. A boa notícia é que parte desse cenário ainda pode ser revertida se as medidas adequadas forem adotadas imediatamente por governos, empresas e sociedade civil.

Essas medidas incluem, no entanto, mudanças radicais nos modelos de produção e consumo, especialmente no que diz respeito à geração e ao uso de energia. Segundo o IPCC, é preciso um crescimento exponencial, na casa dos trilhões de dólares, nos investimentos em matrizes de energia limpa e renovável, e redução drástica de investimentos em fontes de energias fósseis.

Além disso, será preciso reduzir o consumo energético mundial em 0,06% e buscar alternativas de produção, serviços e consumo que possibilitem a diminuição da emissão de GEE.

A iniciativa TCFD

Criada em 2015 pelo Conselho de Estabilidade Financeira (o FSB), a TCFD, ou Força-tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima, desenvolve recomendações que ajudam as organizações a divulgarem dados e informações relacionados às questões climáticas que afetam seu negócio.

Ao tornar mais transparente a divulgação desses dados, a TCFD ajuda a atender a uma demanda crescente do mercado, que tem cada vez mais investidores, credores e outros stakeholders buscando acesso a informações financeiras relacionadas às mudanças climáticas para tomarem melhores decisões.

Ademais, permite às empresas incorporarem riscos e oportunidades relacionados ao clima em seus processos de gestão de riscos e planejamento estratégico, o que ajuda a criar organizações mais sustentáveis ​​e resilientes.

Os riscos e as oportunidades financeiras geradas pelas mudanças climáticas

Já há consenso sobre o impacto das questões climáticas nos negócios. O aquecimento global e suas consequências afetam diretamente o modo de produção e consumo. E, como já foi dito neste texto, o relatório do IPCC é enfático em declarar a necessidade de adotar medidas drásticas que nos levem a um modelo de economia de baixo carbono: única forma de reverter o cenário de colapso que se avizinha.

Riscos relacionados às mudanças climáticas

Segundo os estudos do TCFD, os riscos relacionados às mudanças climáticas para as empresas podem ser divididos em dois grupos: riscos de transição e riscos físicos. 

Riscos de transição

A transição para uma economia de baixo carbono exige grandes mudanças políticas, legais, tecnológicas e de mercado, para se adaptar às condições impostas pela crise do clima. Essas mudanças podem representar níveis variados de risco financeiro e de reputação para as empresas.

Risco político e legal

Esse tipo de risco está ligado a ações governamentais como a implementação de mecanismos para a precificação de carbono e a troca da matriz energética por modelos mais limpos e renováveis, o que pode gerar custos extras e desarticulação da produção. Ele também está relacionado a litígios e outras questões legais, que podem surgir por conta de eventos relacionados às mudanças climáticas.

Risco tecnológico

O sucesso da transição para uma economia de baixo carbono está totalmente condicionado à adoção de inovações tecnológicas. Os riscos, neste caso, estão nas incertezas sobre os prazos que as empresas terão para desenvolver e implementar tais soluções.

Risco de mercado

Os diferentes segmentos de mercado são afetados de formas distintas pelas mudanças climáticas e pela transição para uma economia de baixo carbono. No entanto, as alterações e as oscilações na oferta e demanda por certas commodities, produtos e serviços, são uma consequência certa.

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Risco de reputação

Com a sociedade cada vez mais informada sobre a crise climática e consciente da necessidade de transição para um modelo econômico mais sustentável, a percepção do consumidor e do mercado sobre as empresas será afetada por suas ações de cooperação, ou não, para essa transição.

Riscos físicos

Os riscos físicos causados pelas mudanças climáticas podem ser agudos, quando são resultantes de eventos, ou crônicos, quando ocasionados por mudanças de longo prazo nos padrões climáticos.

Esses riscos trazem diversas implicações financeiras para as empresas, e podem ser:

  • diretos, por danos em ativos;
  • indiretos, com impactos na cadeia de suprimentos ou causando alterações na disponibilidade, no abastecimento e na qualidade da água e de outros recursos.

Oportunidades relacionadas às mudanças climáticas

Se as questões relacionadas ao clima criam riscos, os esforços para reduzir e se adaptar às mudanças climáticas também geram oportunidades para as empresas. Essas oportunidades variam de acordo com a região, o mercado e a indústria em que a companhia está inserida.

Eficiência de recursos

Investir na otimização de processos para fazer uma melhor gestão de recursos energéticos, hídricos e de resíduos tem se provado uma ótima maneira de reduzir custos e tornar as empresas mais eficientes. Ainda, a adoção desse tipo de prática será um grande diferencial para as empresas na transição para uma economia de baixo carbono.

Fonte de energia

A mudança na matriz energética é um dos passos mais importantes na tentativa de frear a crise climática. Mas para atingir as metas globais de emissão de gases do efeito estufa os países terão de investir cada vez mais em fontes limpas e renováveis, como energia eólica e hidráulica, enquanto abandonam fontes vilãs na emissão de GEE, como queima de carvão e petróleo.

As empresas que se adiantarem na transformação da sua matriz energética conseguirão cortar custos em médio e longo prazo e estarão na vanguarda do mercado. 

Produtos e serviços

Investir em inovação e desenvolver produtos de baixa emissão de carbono é uma prática que ajudará as empresas a se tornarem mais competitivas e a capitalizarem com as mudanças nos hábitos de compra dos consumidores, que estão cada vez mais preocupados com sua pegada de carbono. 

Mercados

Ações proativas das empresas na busca por oportunidades em novos mercados e assets podem aumentar a competitividade do negócio e ajudar em seu posicionamento durante a transição para a economia de baixo carbono.

Existem oportunidades especialmente na colaboração com governos, bancos de desenvolvimento, pequenos empreendedores locais e comunidades de países desenvolvidos e em desenvolvimento. Novas oportunidades também podem ser aproveitadas por meio da subscrição ou do financiamento de títulos verdes e de infraestrutura.

Resiliência

O conceito de resiliência climática está relacionado à capacidade das empresas de reagirem e se adaptarem às mudanças climáticas. Assim, é possível fazerem melhor gerenciamento dos riscos associados a elas e aproveitarem as oportunidades geradas pelo cenário.

Impactos financeiros gerados pelas mudanças climáticas

Os impactos financeiros que as questões climáticas podem causar a uma organização são orientados de acordo com os riscos e oportunidades aos quais cada empresa está exposta e às decisões estratégias e administrativas tomadas para lidar com tais riscos e aproveitar as oportunidades.

Mas nem sempre esses impactos são claros e diretos, e ainda é muito comum que as empresas tenham dificuldades para identificá-los. As principais razões para isso são:

  • as organizações têm conhecimento limitado sobre as questões relacionadas às mudanças climáticas;
  • é frequente que as empresas se concentrem nos riscos de curto prazo, sem dar atenção aos riscos que podem surgir em longo prazo.

Abaixo, elencamos alguns exemplos de relação entre riscos, oportunidades e impactos financeiros que constam no TCFD.

Riscos x impactos financeiros

Riscos relacionados às mudanças climáticasImpactos financeiros
‒ Aumento da precificação das emissões de GEE‒ Aumento dos custos operacionais (custos mais altos de compliance, aumento dos prêmios de seguro)
‒ Substituição de produtos e serviços existentes por alternativas de baixa emissão‒ Baixas e aposentadoria antecipada de ativos existentes
‒ Custos de transição para tecnologias de baixa emissão‒ Investimentos de capital no desenvolvimento de tecnologias
‒ Mudança no comportamento dos clientes‒ Redução na demanda por bens e serviços em razão das mudanças nas preferências do consumidor
‒ Aumento do custo de matérias-primas‒ Aumento dos custos de produção em virtude das alterações nos preços de insumos (energia, água) e requisitos de produção (tratamento de resíduos)
‒ Mudanças nas preferências do consumidor‒ Redução na receita por conta de uma queda na demanda por bens/serviços
‒ Aumento da gravidade de eventos climáticos extremos, como ciclones e inundações‒ Redução na receita em função de uma queda na capacidade de produção (dificuldades de transporte, interrupções na cadeia de suprimentos)
‒ Mudanças nos padrões de precipitação e extrema variabilidade nos padrões climáticos‒ Aumento dos custos operacionais (suprimento inadequado de água para usinas hidrelétricas ou para resfriar usinas nucleares e de combustíveis fósseis)
‒ Elevação do nível do mar‒ Crescimento nos prêmios de seguro e possível diminuição na disponibilidade de seguro para ativos em locais de “alto risco”

Oportunidades x impactos financeiros

Oportunidades relacionadas às mudanças climáticasImpactos financeiros
‒ Uso de modais de transporte mais eficientes‒ Redução dos custos operacionais (por meio de ganhos de eficiência e redução de custos)
‒ Uso de processos de produção e distribuição mais eficientes‒ Maior capacidade de produção, resultando em aumento de receita
‒ Uso de fontes de energia de baixa emissão de carbono‒ Redução da exposição a futuros aumentos nos preços de combustíveis fósseis
‒ Participação no mercado de carbono‒ Melhora da reputação, resultando em aumento da demanda por bens/serviços
‒ Capacidade de diversificar atividades de negócios‒ Melhor posicionamento competitivo para refletir as mudanças nas preferências do consumidor, resultando em aumento de receitas
‒ Acesso a novos mercados‒ Maior diversificação de ativos financeiros (títulos verdes e infraestrutura)
‒ Participação em programas de energia renovável e adoção de medidas de eficiência energética‒ Aumento no valuation por meio do planejamento de resiliência (infraestrutura, terrenos, edifícios)

As recomendações do TCFD

As Recomendações da Força-tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima usam quatro pilares como centro de sua orientação para as empresas na apresentação de suas informações e dados. São eles:

Governança

Este pilar sugere que as empresas desenvolvam e divulguem suas ações sobre governança no que se refere aos riscos e às oportunidades relacionadas às mudanças climáticas.

Estratégia

O pilar estratégico do TCFD aconselha as empresas a capturarem impactos reais e potenciais de oportunidades e riscos relacionados ao clima nas atividades comerciais, na estratégia e no planejamento financeiro da organização.

Gestão de riscos

Este pilar visa destacar nas divulgações os processos utilizados pela empresa para identificar, avaliar e mitigar os riscos relacionados ao clima.

Métricas e metas

O pilar de métricas e metas aconselha as empresas a apresentarem quais métricas e metas usam para avaliar e gerenciar os riscos e oportunidades relacionados às questões climáticas.

Ao optar por seguir as recomendações do documento da Força-tarefa, sua companhia, consequentemente, precisará adotar as melhores práticas na observação dos cenários para avaliação de riscos e identificação de oportunidades, o que ajudará sua empresa a estar mais bem preparada para lidar com os desafios que a transição para a economia de baixo carbono imporá a todo o mercado.

Além disso, com divulgações de dados financeiros segundo o modelo do TCFD, sua empresa ganhará mais confiabilidade e terá mais chances de atrair novos investimentos e parceiros.

Esperamos que este conteúdo tenha gerado insights sobre os impactos que as mudanças climáticas têm sobre o seu negócio e sobre todo o mercado, bem como mostrado a importância de reconhecer os riscos e as oportunidades que as questões ligadas ao clima podem criar. Para ver outros conteúdos que tratam de assuntos relevantes para a sua empresa, siga acompanhando o blog da Agrotools.

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